Em
uma sociedade conservadora e acomodada, é dever do jornalista causar
inquietação
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Para Melquíades, a alteridade e o
respeito são elementos fundamentais
ao jornalista
(Foto: Joseanne Nery)
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Formado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Ceará
(UECE) e em Jornalismo pela Faculdade Integrada do Ceará (FIC), o jornalista
repórter especial do Diário do Nordeste, Melquíades Júnior, atua a mais de 12
anos na área e conquistou notoriedade no jornalismo cearense e nacional por
suas reportagens especiais. Venceu em 2013, o Prêmio Jornalistas & Cia/HSBC
de Imprensa e Sustentabilidade, com a série “Viúvas do Veneno”, no segmento
Jornal, da categoria Mídia Nacional. A reportagem também foi finalista do
Prêmio Esso, na categoria Ambiental, no mesmo ano. Em 2014 foi vencedor do
internacional Prêmio SIP de Periodismo, na categoria Direitos Humanos, como
co-autor da série “Excluídos – Indígenas, Quilombolas e Ciganos”. Outras de
suas matérias foram “Parto dos Anjos” (2014), “Travessia da Cor – África e
Identidade Negra” (2014) e “Índios do Ceará” (2013).
Em entrevista para a VF da
disciplina Teorias de Jornalismo, ministrada pelo professor Ismar Capistrano, da
Faculdade 7 de Setembro (FA7), Melquíades mostra as teorias aprendidas em sala
de aula, na prática. Utilizando, principalmente, hipóteses como a Agenda Setting e Newsmaking, o jornalista conta sobre as mudanças no jornalismo, sua
possível independência, exigência do diploma, utopia da imparcialidade e a multifuncionalidade
do profissional, destacando o perfil ideal que os jornalistas devem possuir.
Para você, qual o poder do jornalismo na
sociedade atual?
É um
grande poder. Os meios de comunicação fazem o link entre as bases, é como se eles
fossem um meio campo entre as pessoas que têm o direito e as instituições que
têm o dever. O grande papel dos meios de comunicação é fazer essa ponte, essa
conexão. Então, se você tem a responsabilidade de representar a voz ou as vozes
do povo, já é um grande poder.
Em relação à banalização da violência e a
questão do show business, eles estão
transformando o jornalismo em entretenimento? O que você acha disso?
A
própria banalização já faz parte do show
business. Esse é um dos grandes problemas do mundo do jornalismo. Eu não
diria que é algo tão novo, apenas existem outras formas fúteis de se fazer
jornalismo que com o tempo vão apenas se transformando. Hoje e nos últimos dez
ou quinze anos, o que temos de mais forte é a questão policial. Os programas
policiais reforçam a violência, quando querem parecer que estão criticando,
reforçam os estigmas, quando querem parecer que estão fazendo alguma justiça. A
alegação é que as pessoas gostam disso, que atrai público, mas um dos grandes
deveres dos meios de comunicação é oferecer outras opções para quem não conhece
outros programas. A gente percebe no jornalismo local que se fala muito em
sangue, bala, morte e isso se torna tão sério, porque o programa policial mais
do que uma forma feia, ridícula ou errada de fazer jornalismo vai além, ele
aborda a questão dos direitos humanos. É necessário fazer a conexão entre
direito e dever de qualquer pessoa. Isso deve ser defendido, concretizado. Então,
quando você utiliza um meio de comunicação para denegrir a imagem de alguém,
independente se cometeu ou não um crime, ele tem que pagar pelo o que fez, mas
não se deve abordar uma questão de cor, raça ou classe social, como esses
programas fazem. Paralelamente, o jornalismo de entretenimento é mais do que
necessário, é importante a sua existência. A pergunta é: isso deve ser prioridade
quanto às outras questões também importantes no jornalismo?
A internet possibilita agora que a gente
faça o jornalismo de forma mais independente, sem depender tanto das mídias
tradicionais. Você concorda que o jornalismo está mais independente?
Sim,
mas eu acho que o mais importante em relação à independência não é você fazer o
que você quiser, é você saber escrever com responsabilidade e sem precisar ter
um aparato ou estrutura de um grande meio de comunicação. A maior independência
que se pode ter é a independência financeira, pois em qualquer meio você deve
ter a responsabilidade de conduzir aquela escrita. Porém, eu concordo que a
internet é um grande mecanismo de descentralização do poder da informação. Até
a questão da autocensura, porque na internet você tem uma maior liberdade para
pensar no que quiser falar, sem se preocupar com outras esferas, como acontece
nas mídias tradicionais.
Ainda sobre a internet, você acredita ser
diferente a maneira de contar notícias nas diferentes plataformas de
comunicação?
A
internet ainda é um processo de transformação. Existem algumas teorias, ainda não
escritas, sobre a linguagem da internet e, em algumas delas, eu discordo.
Cria-se uma noção, às vezes, que o leitor de internet quer ler apenas textos
curtos e objetivos. Na internet, na maioria das vezes, pensa em quantidade, nos
“cliques”, e não em qualidade. Isso é um tiro no pé, porque está deixando de
entender que muitos de seus leitores são críticos e querem um material bom. Como
se os leitores das diversas plataformas fossem completamente diferentes. Ao
fazer isso, acaba-se perdendo a essência do jornalismo. Os meios de comunicação
devem se preocupar com aquelas pessoas que estão lendo as matérias até o final.
E aqueles que são atraídos até o final, não são aqueles que acharam o lide
bonitinho. Um exemplo são blogs e textos de jornalistas longuíssimos que as
pessoas os lêem na íntegra.
Quais são os critérios de noticiabilidade
do Diário do Nordeste?
É
complicado, porque eu não posso falar em nome do jornal, eu não tenho esse
poder. Mas o que eu posso dizer é sobre os meus critérios de noticiabilidade,
ou seja, das pautas que eu faço aqui, porque, ainda que seja a mesma empresa,
cada pauta tem sua especificidade. Outra questão é o nosso poder de
argumentação. Se o repórter souber argumentar bem sobre a sua pauta, tiver boas
informações e angulações, isso já pode ajudar muito na proposta que por oferecida
ele. É importante falar porque é relevante, porque aquilo vai afetar as
pessoas. Os meus critérios, quando vou
produzir para o caderno de reportagem, tem a ver com as perspectivas maiores,
os diversos ângulos de uma matéria, eu sempre busco o outro lado. Eu tento
buscar os outros lados não só nas reportagens especiais, mas nas factuais
também. Outro critério também é
a inquietação. O que gerar inquietação pode resultar em uma matéria, como por exemplo,
as injustiças sociais.
Quando à polêmica do diploma, você acha
que é necessário ao jornalista? Por quê?
Acho que é necessário, mas não
porque eu acho que você precisa ter diploma para ser jornalista. Se já temos um
jornalismo de péssima qualidade, nós corremos o risco de ter um pior ainda se
isso for mais aberto do que já é. Existem pessoas muito mais capacitadas que
jornalistas diplomados, para fazer o jornalismo sério. Porém, na realidade em
que vivemos, onde precisamos de um estudo para ter o mínimo de qualidade nas
produções das notícias, há sim a necessidade do diploma. É importante porque é
importante você estudar, ter um curso superior, mas ele não faz necessariamente
“o jornalista”. Ele é apenas um dos vários elementos que deve formá-lo. O
diploma não é medidor de qualidade. O que forma o jornalista é também a vida. Não
adianta você passar quatro anos na faculdade, focado em escola, cinema, clube e
televisão, mas estar completamente alheio as outras coisas do mundo. Porque
quando se chega numa redação de jornal, você terá que conhecer muito além
disso, ou seja, ter uma visão mais ampla do mundo.
Quais são esses outros elementos que
formam o jornalista?
Formação
humana. É algo que sempre está em construção. Tem haver com leitura não apenas
de livros, mas na tentativa de ler o que está ao seu redor: os lugares, as
pessoas, o desconhecido. A qualidade, a dimensão de uma entrevista, em uma
matéria, depende do contato que o jornalista estabelece com a sua fonte. Isso
vai ser bom ou ruim conforme a capacidade do profissional de dialogar com as
pessoas e de ler o que elas estão comunicando. É a sensibilidade de mundo.
Nossa profissão é feita basicamente do diálogo. Então é preciso saber ler o
olho das pessoas, o seu silêncio. Calar quando necessário. Mais do que
perguntar, o nosso dever é ouvir respostas. Não somos vozes, somos ouvidos.
Quanto melhor ouvirmos, melhor conseguiremos falar depois disso.
“É preciso saber ler o olho das pessoas. Mais do que perguntar, o nosso dever é ouvir respostas.”
Em suas matérias como repórter especial, como, por exemplo, “Parto dos
Anjos”, você opta por dar destaque para as pessoas que, geralmente, não têm voz
na mídia. Isso não seria parcialidade? Existe imparcialidade no jornalismo?
É sim uma parcialidade. O jornalismo 100% imparcial não existe. É uma utopia
que não deve ser perseguida. O jornalismo deve ser isento, responsável, mas o
nosso caminho não deve ser a imparcialidade, e sim a seriedade. São palavras
que possuem conceitos diferentes. Em “Parto dos Anjos”, não é que eu ouvi “um
lado”, eu ouvi “os lados”. É certo que predominou um, aquele lado que
geralmente não é abordado. Mas um dos conceitos da justiça é o “desigual para
os desiguais”. De alguma forma, você tenta compensar o fato de aquelas pessoas
não terem voz alguma. Naquele momento elas finalmente têm voz. É deixar que o
grito, que a dor dessas pessoas se manifeste. É hipocrisia dizermos que somos
jornalistas imparciais. Somos sujeito e objeto de tudo aquilo que nós tratamos.
Quando você escreve, você não deixa de ser você para ser outra pessoa. Você,
antes de ser jornalista, é um ser humano.
Tem um pouco de nós nas matérias que fazemos. Eu me emociono com todas
as matérias que eu faço. Acredito que, se eu consigo me emocionar, de alguma
forma me coloquei no lugar do outro. Mais do que a imparcialidade, devemos
perseguir também a alteridade.

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